O problema do sucesso, Samsung, é que às vezes você fica preso nele

Semana passada boa parte dos blogueiros de tecnologia se dedicaram a pitacar sobre os resultados financeiros e de vendas da Samsung. Nenhum deles pensou que, talvez, quem sabe, a estratégia da Samsung deu certo demais e agora ela não sabe como sair.

  • Ocupar o espaço da Nokia no varejo offline deu certo demais
    Uma das forças da Nokia sempre foi estar à venda em praticamente qualquer coisa que vendia celular, de operadora aos grandes magazines, sempre proeminente, sempre aparecendo mais que a concorrência, sempre tendo vendedores prontos a persuadir os clientes a comprar seus produtos. A Samsung leu os sinais do Elopcalypse de uma maneira incrivelmente veloz e ocupou os espaços vagos pela Nokia.
    Mas as pessoas estão migrando as compras do varejo offline e das operadoras para o varejo online, então o dispêndio torna-se grande para um retorno cada vez menor, com menos chances do comprador ser persuadido por um bom vendedor, e mais vulnerável a guerra de preços.
    E, para não dizer que não falei do tal brand loyalty tão amado por uns e outros, o mundo online é o território dos fandoms, seja de cantores adolescentes, seja de fabricantes – e a Samsung não sabe como entrar nesse mundo.

  • Apostar nos telefones com telas enormes deu certo demais
    Lembram como em setembro de 2011 os 5,3″ do Galaxy Note original eram bizarros, que não caberia no bolso/bolsa de ninguém e por aí vai? Ou mesmo do sucesso que foi o Galaxy Grand original quando foi lançado, no final de 2012?1 A Samsung entendeu antes e mais rapidamente que todo mundo que o tamanho de tela vence sempre2 e é por causa disso que estamos em agosto de 2014, telefones com telas de 5″ são normais e comuns e encontrar um telefone com tela menor que 4″ se tornou uma luta inglória.
    No entanto, depois de anos de tentativas desajeitadas da concorrência (alguém lembra do LG Vu?), todo mundo mais ou menos conseguiu encontrar sua maneira de atochar uma tela grande num telefone usável que não precisasse de uma bolsa própria. A Samsung perdeu sua vantagem, e inclusive permitiu que o movimento chegasse ao low-end sem ter uma resposta à altura. E já que falamos em low-end…

  • Inundar o mercado low-end deu certo demais
    Low-end não traz margens de lucro obscenas, mas traz volume e uma sempre bem-vinda receita advinda da conversão dos donos de featurephones.
    Lançar infinitas combinações de Pocket isso, Young aquilo e por aí vai garantia que sempre existia um Samsung perfeito para este comprador. Só que isto gerou uma linha de aparelhos confusa, sem sentido e que se tornou um alvo fácil para a inusitada aliança ad hoc entre Google, Motorola e fabricantes chineses para conquistar o território com linhas mais enxutas, entregando mais por preços mais baixos. Ou traduzindo: a Samsung não tem e continua sem ter uma resposta ao Moto E (observem que não estou nem falando do Moto G) e aos Xiaomi Redmi.

Não sei qual seria a saída para escapar da armadilha do sucesso em que a Samsung se meteu. Não sei se alguém sabe3. O pior, acho, é que nem na Samsung se sabe.


  1. Lembro de ter conversado com vendedores em pelo menos duas lojas da Fast Shop quando o Grand foi lançado no Brasil e, em todos os casos, vendia feito água. Estava claro que as pessoas queriam um telefone com tela maior na faixa de preço que elas podiam pagar. 
  2. Os que ainda duvidam estão, em sua quase totalidade, em um certo fandom e serão convertidos no lançamento do iPhone 6. 
  3. Talvez a melhor proposta seja mesmo a de Stefan Constantinescu 
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